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Set/Out/Nov/2005 - Importância da Inoculação e Nodulação na Cultura da Soja - nº169
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Importância da inoculação e nodulação na cultura da soja

Eng. Agr. Msc Wagner Antonio Chueiri; Eng. Agr. Fernando Pajara e Eng. Agr. Diego Bozza

A soja é a leguminosa mais cultuvada em todo o mundo, em função da sua adaptação climática e do seu alto teor de proteína. É a fonte de proteína mais barata que a humanidade dispõe, o que justifica o seu cultivo em larga escala. No Brasil é a cultura com a maior área plantada e de maior importância na pauta de exportação. A safra de verão 2004/05 apontou um aumento 8,7% na área plantada, comparativamente à safra 2003/2004. Em termos nacionais, a produção aumentou 0,87%, atingindo um volume de 44.792,7 milhões de toneladas (CONAB, 2005).

Nitrogênio na cultura da soja

O nitrogênio (N) é um dos nutrientes que as culturas agrícolas necessitam em quantidades relativamente grandes sendo, portanto, considerado um macronutriente. Cerca de 78% do ar atmosférico é constituído por esse elemento mas sob uma forma que não é diretamente assimilável pelas plantas.

É o nutriente requerido em maior quantidade pela cultura da soja. Estima-se que para produzir 1.000 kg de grãos são necessários 80 kg de N. Basicamente, as fontes de N para a cultura da soja são os fertilizantes nitrogenados e o N atmosférico que se torna disponível através da fixação biológica do nitrogênio (FBN) (Hungria et al., 2001).

Avanços no melhoramento genético da planta e nas pesquisas em microbiologia do solo tornaram possíveis substituir a adubação nitrogenada pelo uso de inoculantes com estirpes de rizóbio (Bradyrhizobium japonicum e Bradyrhizobium elkanii). Isso proporcionou um suprimento de quase todo nitrogênio demandado pela cultura, equivalente a mais de 250 kg de N ha-¹ por cultivo (Urquiaga et al. 1999), o que representa uma economia para o país equivalente a 1,4 bilhões de dólares por ano, dinheiro que deixa de ser utilizado na compra de fertilizantes nitrogenados. A cultura da soja retira, anualmente, cerca de 200 kg de N ha-¹ do solo. De um modo geral, nossos solos conseguem fornecer apenas 20 a 40 kg de Nha-¹. Consequentemente, mesmo se o solo for rico em N, se os 160 a 180 kg de N restantes não forem repostos, o reservatório de N do solo logo ficará esgotado. Dessa forma, as opções são a de fornecer fertilizantes nitrogenados ou inocular a soja com rizóbio.

Fixação biológica do nitrogênio (FBN)

É a principal fonte de N para a cultura da soja. Bactérias do gênero Bradyrhizobium, quando em contato com as raízes da soja, infectam as raízes, via pêlos radiculares, formando os nódulos.

Dentro dos nódulos, as bactérias, através de uma enzima chamada dinitrogenase, conseguem quebrar a tripla ligação (N≡N) do N2 atmosférico e provocar a sua redução até NH3 (amônia), a mesma forma obtida no processo industrial. Essa amônia é rapidamente incorporada aos íons H+, abundantes nas células das bactérias, ocorrendo a transformação em íons amônio (NH4+) que serão distribuídos para a planta hospedeira e incorporados em formas de N orgânico (Hungria et al., 1997). A FBN pode, dependendo de sua eficiência, fornecer todo o N que a soja necessita.

A eficiência da FBN depende de uma série de fatores inerentes ao ambiente onde a simbiose ocorre, à planta e à bactéria. Os fatores ambientais mais limitantes são as altas temperaturas e o estresse hídrico. Outras limitações podem ser as relacionadas à capacidade de FBN das cultivares de soja e à nutrição da planta como: a elevada acidez do solo, com presença de Al Mn, e deficiência de P, K, Ca e Mg e de micro-nutrientes, especialmente MO e Co que são importantes no processo da FBN.  Com relação à bactéria, além da eficiência de fixação simbiótica e da competitividade de cada estirpe, sabe-se que, aumentando a população de células viáveis da bactéria na semente através da inoculação, independentemente da população existente no solo, aumenta-se a ocorrência de nódulos na coroa do sistema radicular da soja, que são os que possuem maior eficiência de FBN (Weaver & Frederick, 1974). Assim, todos os fatores, como a qualidade e quantidade dos inoculantes, os cuidados na inoculação, as condições de solo, a aderência dos inoculantes nas sementes e a aplicação de fungicidas e micronutrientes nas sementes, que influem na população de células nas sementes são fundamentais para o sucesso da FBN.

Qualidade e quantidade dos inoculantes

Os inoculantes turfosos, líquidos ou outras formulações devem conter uma população mínima de 1x10 elevado à oitava potência células/g ou ml de inoculante e devem ter eficiência agronômica comprovada, conforme cormas oficiais da RELARE, aprovadas pelo Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (MAPA).

A quantidade mínima dos inculantes a ser utilizada deve ser a que forneça 300.000 células/semente.

Cuidados ao adquirir inoculantes

a)      Adquirir inoculantes e recomendados pela pesquisa e devidamente registrados no MAPA. O número de registro deverá estar impresso na embalagem;

b)      Não adquirir e não usar inoculante com prazo de validade vencido e que não tenha uma produção mínima de 1 x 10 elevado à oitava potência células viáveis por grama ou por ml do produto e que forneça 300.000 células/semente;

c)      Certificar-se de que o mesmo estava armazenado em condições satisfatórias de temperatura e arejamento;

d)      Transportar e conservar o inoculante em lugar fresco e bem arejado;

e)      Certificar-se de que os inoculantes contenham pelo menos duas das quatro estirpes recomendadas para o Brasil (SEMIA 587, SEMIA 5019, SEMIA 5079 E SEMIA 5080);

f)       Em caso de dúvida sobre a qualidade do inoculante, contatar um fiscal do MAPA.

Cuidados na inoculação

a)      Fazer a inoculação à sombra e efetuar a semeadura no mesmo dia, especialmente se a semente for tratada com fungicidas e micronutrientes, mantendo a semente inoculada protegida do sol e do calor excessivo;

b)      Evitar o aquecimento do depósito da semente na semeadora, pois altas temperaturas reduzem o número de bactérias viáveis aderidas à semente;

c)      Para melhorar a aderência dos inoculantes turfosos, recomenda-se umedecer a semente com 300 ml/50 kg semente de água açucarada a 10% (100 g de açúcar e completar para um litro de água);

d)      Umedecer a semente com a solução açucarada, homogeneizar e deixar secar a sombra.  A homogeneização das sementes pode ser feita em máquinas próprias, tambor giratório ou betoneira. Sempre que se usar a água açucarada como adesivo, usar também o fungicida, pois esta proporciona condição favorável para desenvolvimento de fungos.

Aplicação de fungicidas às sementes junto com o inoculante

A maioria das combinações de fungicidas indicados para o tratamento de sementes com fungicidas na FBN ocorre em solos de primeiro ano e cultivo com soja, com baixa população de Bradyhizobium ssp. Nesse caso, para garantir melhores resultados com a inoculação e o estabelecimento da população do Bradyhizobium ssp. Ao solo, o agricultor deve evitar o tratamento de sementes com fungicidas, desde que:

1)as sementes possuam alta qualidade fisiológica e sanitária, estejam livres de fitopatógenos importantes (pragas quarentenárias A2 ou pragas não quarentenárias regulamentadas), definidos e controlados pelo Certificado Fitossanitário de Origem Consolidado (CFOC), conforme legislação.

2) o solo apresente boa disponibilidade hídrica e temperatura adequada para rápida germinação e emergência.

Caso essas condições não sejam atingidas, o produtor deve tratar a semente com fungicidas, dando preferência às misturas Carboxin + Thiram, Difenoconazole + Thiram, Carbendazin + Captan, Thiabendazole + Tolylfluanid ou Carbendazin + Thiram, que demonstram ser os menos tóxicos para o Bradyrhizobium (Embrapa Soja, 2005).

Aplicação de inoculante pulverizado no sulco de semeadura

É uma alternativa que vem sendo usada para áreas novas ou já cultivadas com soja. O inoculante é aplicado na forma de pulverização no sulco, durante a operação de semeadura. Com esta prática as bactérias (rizóbio) fiam livre do contato com fungicidas e micronutrientes que podem causar danos a elas. Para adotar esta prática a dose do inoculante a ser aplicado deverá ser no mínimo seis vezes superior a indicada para as sementes. O volume de calda em que foram testados estes produtos foram acima de 501/ha.


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Aplicação de micronutrientes nas sementes

O Cobalto (Co) e o Molibdênio (Mo) são indispensáveis para a eficiência da FBN, para a maioria dos solos onde a soja vem sendo cultivada. O Co não é considerado elemento essencial para as plantas, mas no caso da FBN ele tem grande importância, pois é componente da leghemoglobina (cor avermelhada do interior do nódulo), atuando no transporte de oxigênio e no desenvolvimento de células da bactéria fixadora do N2. O MO é um nutriente essencial para as plantas, sendo constituinte de enzimas como a nitrogenase e a redutase de nitrato, que transformam quimicamente o nitrogênio tanto do ao como do solo, em formas que a planta possa incorporar em seus processos metabólicos e compostos, como por exemplo a proteína. As indicações técnicas atuais desses nutrientes são: 2 a 3 g de Co e 12 a 30 g de Mo/ha via semente ou em pulverização foliar, nos estádios de desenvolvimento V3-V5.

Aplicação de fungicidas e micronutrientes nas sementes, junto com o inoculante

A aplicação dos micronutrientes juntamente com fungicidas, antes da inoculação, reduz o número de nódulos e a eficiência da FBN. Assim, quando se utilizar fungicidas no tratamento de sementes, pode-se aplicar como alternativas os micronutrientes por pulverização foliar (Campo & Hungria, 2000, Campo et al., 2000 e 2001).

Inoculação em áreas de primeiro cultivo com soja

Como a soja não é uma cultura nativa do Brasil e a bactéria que fixa o nitrogênio atmosférico (bradirizóbio) não existe naturalmente nos solos brasileiros, é indispensável que se faça a inoculação da soja nessas condições, para garantia de obtenção de alta produtividade. A dose de inoculante deve ser a indicada e não deixar de observar os cuidados em relação à aplicação de fungicidas e micronutrientes nas sementes. Quanto maior o número de celular viáveis nas sementes, melhor será a nodulação e o rendimento de grãos. Em áreas novas, sem histórico de cultivo anterior, ou em áreas com acidez elevada, com pH em água menor que 5,5, recomenda-se a aplicação do dobro da dose de inoculante. Isto é necessário porque a acidez do solo interfere na sobrevivência do rizóbio, e também porque em área de primeiro cultivo a competição entre estirpes nativas e as selecionadas é maior.

Inoculação em áreas com cultivo anterior de soja (reinoculação)

Este é um dado muito importante pois muitos agricultores deixam de fazer a reinoculação alegando que a área já está colonizada pelas estirpes de Bradyhizobium, o que é verdade, pois o rizóbio tem condições de viver saprofiticamente no solo se alimentando de matéria orgânica. Porém, a reinoculação é benéfica porque, mesmo o rizóbio estando presente no solo, ocorre competição com as estirpes nativas de rizóbio do solo que são menos eficientes na FBN para colonizar as raízes de soja. Além disso, sob condições ambientais desfavoráveis, as estirpes nativas se sobressaem e acabam por predominar no solo. Com a inoculação feita a cada cultivo de soja aumentam as chances das estirpes selecionadas (que são mais eficientes) colonizarem as raízes de soja, fazendo com que haja aumento na produtividade. Pesquisas tem mostrado ganhos médios de 4 a 15% no rendimento de grãos com a reinoculação.

Como avaliar a nodulação

Na soja, o aparecimento de nódulos ocorre, geralmente, no quinto ao oitavo dia após a emergência. Aos doze dias, uma nodulação de quatro a oito nódulos por planta pode ser considerada satisfatória. No início da floração, onde o processo de FBN atinge seu ponto máximo, uma boa nodulação seria de 15 a 30 nódulos ou 100 a 200 mg de nódulos secos por planta. Nódulos com 2 a 3 mm distribuídos na coroa da raiz e com interior róseo são indícios de nodulação precoce e inoculação bem sucedida, enquanto a nodulação predominante nas raízes secundárias indica a formação tardia de nódulos, podendo ser indício de condições ambientais adversas ou problemas na inoculação, se estiver associada com plantas raquíticas e cloróticas (amareladas) (Souza & Lobato, 2004).

Nitrogênio mineral

As pesquisas têm mostrado que o nitrogênio na forma mineral aplicado no sulco de semeadura da soja pode reduzir a nodulação e a eficiência da FBN, quando ultrapassa doses de 20 kg/ha. Os eventuais efeitos visuais e velocidade de arranque da soja, muitas vezes observados pelos produtores para justificar esta prática, não significam ganhos de rendimento na colheita. As aplicações em cobertura, em qualquer estádio de desenvolvimento da planta, em sistemas de semeadura direta ou convencional, via de regra não trazem nenhum incremento de produtividade para a soja. Quando isso acontece é porque houve alguma falha no processo de FBN, devido a problemas operacionais ambientais, ou outros.

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