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Divulgações Técnicas

Jan/Fev/2006 - Cobertura Vegetal do Solo - nº170
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Cobertura do solo

As plantas de cobertura de solo constituem um importante componente em sistemas agrícolas, protegendo o solo da erosão, facilitando a ciclagem de nutrientes, adicionando N via leguminosas e mantendo a umidade do solo após seu manejo. A escolha de espécies vegetais para introdução nos sistemas de culturas depende da adaptação delas às condições de clima de cada região e do interesse do produtor. A produção de fitomassa das espécies utilizadas como cobertura é decorrente das condições edofoclimáticas, fitossanitárias e do seu sistema radicular. Quanto mais o sistema radicular penetrar no solo, maior será a produção de biomassa, além de promover a descompactação do solo.

Matéria Orgânica do solo

A matéria orgânica do (M.O) é produto da acumulação de resíduos de plantas e animais parcialmente decompostos na superfície do solo. Esses materiais, em ativo estado de decomposição, estão submetidos ao ataque contínuo de microorganismos. Em conseqüência grande parte em caráter transitório, é continuamente renovada pela adição de resíduos vegetais e animais.

Além da formação de compostos orgânicos a manutenção e/ou adição da matéria orgânica no solo, através das plantas de cobertura e resíduos orgânicos, promovem com o tempo alguns benefícios como:

• Maior capacidade de armazenamento de água bem como redução de perda de evaporação;
• Melhor aproveitamento dos nutrientes pelas culturas devido a disponibilização gradual do sistema;
• Aumento de complexação orgânica do alumínio e manganês que se encontram em níveis tóxicos no solo;
• Melhoria do desenvolvimento e rendimento final das culturas.

Relação C/N

Conhecer a relação carbono/nitrogênio dos materiais vegetais é importante, pois influenciará na decomposição da M.O. e no manejo a ser adotado. A relação C/N é inerente à espécie e reflete a velocidade com que a decomposição do material pode se processar. Quanto a essa característica, as plantas podem ser agrupadas em duas classes, uma de decomposição rápida (exemplo: leguminosas) e a outra de decomposição lenta (exemplo: gramíneas). As leguminosas, por imobilizarem nos seus tecidos o nitrogênio da fixação biológica feita pelo rizóbio associado, possuem relação C/N próximo a 20 e taxa de decomposição rápida, ao passo que as gramíneas são de decomposição mais lenta, pois o conteúdo de N na fitomassa é menor. Embora isso seja verdadeiro, tem-se observado que, para as condições de clima tropical, mesmo quando a palha é basicamente de gramíneas, há uma decomposição acelerada do material, de tal forma que manter uma camada de cobertura de solo nessas condições torna-se uma atividade complexa. Na tabela 1 é possível observar a relação C/N de algumas espécies.

Espécies Adequadas

Nos Cerrados, o cultivo do milheto para a formação de cobertura morta, principalmente na agricultura de sequeiro, foi o que permitiu o grande impulso na adoção do plantio direto. Trata-se de cultura de verão que nos plantios de outubro e novembro, pode atingir até 15 t de ha-¹ de matéria seca, mas pode limitar-se a cerca de 5 t ha-¹ na safrinha (Salton & Kichel, 1998, citado por Kluthcoushi & Stone, 2003). Atualmente já existem variedades de milheto que podem fornecer até 11 t ha-¹ na safrinha como observa Filho (2005). Porém o milheto não é a única alternativa para regiões tropicais. A Tabela 2 apresenta resultados de pesquisa onde mostra que outras espécies obtiveram excelente resultado na formação de palhada, tanto de forma isolada ou em consórcio. A alternância de espécies ou mesmo o seu consórcio conduz à exploração diferenciada do perfil do solo, colonizando-o em diferentes profundidades. Assim, o incremento de matéria orgânica, via raízes, contribui para estruturar o solo.

Locais onde há alternância entre soja e algodão, recomenda-se fazer a semeadura de espécies para produção de palha logo após a colheita de soja. Se for possível, recomenda-se reforçar com uma nova semeadura antes do algodoeiro, no período da primavera. Isso garantirá um bom aporte de palha ao sistema. Cuidados especiais devem ser tomados no caso da opção pelo nabo forrageiro, já que o mesmo interfere de forma negativa na germinação de sementes do algodoeiro. Para evitar esse problema, recomenda-se cultivar outra espécie sobre a palha do nabo forrageiro antes da semeadura do algodoeiro, que pode ser o milheto.

Na região sul do Brasil, bem como no Mato Grosso do Sul, a aveia preta tem apresentado destaque na produção de matéria seca, como cultura de inverno, atingindo mais de 19t ha-¹ e o trigo, a menor produção com apenas 2,2 t ha-¹. Os resíduos remanescentes, após 170 dias, foram de 43%, 36%, 8%, 25%, 9% e 64% para aveia preta, aveia branca, colza, chicaro, ervilhaca e trigo respectivamente. Diversas espécies podem ser utilizadas para a formação de biomassa para a região sul do país conforme a tabela I.

Algumas sucessões de espécies, além de melhorar o rendimento da cultura principal, proporcionam condições específicas, como divulga a EMBRAPA, (2004).

• Aveia preta- milheto - soja (para a produção de palha);
• Aveia - Soja - Nabo Forrageiro - Milho (para elevada reciclagem de nutrientes cmo o K e o N para o milho);
• Nabo Forrageiro - Milheto na primavera - Soja (boa descompactação superficial do solo, alta produção de palha, reciclagem de potássio e controle de invasoras);
• Soja - Girassol safrinha - Milho (bom para a produtividade do milho e estruturação do solo).

Já Celegari (2002), faz as seguintes indicações:

1)      Possibilidade de semeadura de Crotalaria juncea, sorgo forrageiro, milheto, guandu anão ou ainda consórcio de Crotalaria com sorgo ou milheto. Podem ser plantados logo após a colheita de milho safrinha ou após cultivo de inverno e manejo/colheita do milho de meados de fevereiro, posterior implantação dos cultivos de cobertura que aos 60-70 dias após são manejados para posterior plantio de cultura comerciais, como soja, milho, feijão, arroz, trigo ou cana-de-açúcar (PR, SC, RS, SP e regiões de cerrado em MG, GO, MS e MT).

2)      Plantio de milho consorciado com guandu, Crolataria juncea quando as plantas de milho estiverem com aproximadamente 30 cm, utilizando a mesma máquina de plantio, apenas com um pequeno deslocamento entre as fileiras de milho, ou ainda utilizando a máquina de incorporar uréia ao lado das plantas de mulho: milho consorciado com estilosantes (plantio simultâneo); com mucuna, feijão-de-porco (nestes casos plantio aos 80-100 dias de semeadura do milho), e, posteriormente, após a colheita do milho, é manejada toda a massa vegetal ou em alguns casos podendo ser utilizada temporariamente como pastejo aos animais.

Plantio de macuna após colheita de cultivos precoces como arroz, milho, amendoin e soja: opções principalmente para os cerrados, aproveitando as últimas chuvas, neste caso o manejo de coberturas verdes deverá ser no início do próximo período chuvoso.

Plantio de guandu, Crolataria paulina, gunadu x sorgo, guandu x milheto, mucuna, em novembro caso deixe o terreno em pousio por um ano agrícola, sendo neste caso manejado em outubro do ano seguinte.

Cultivo de girassol, milho, milho de pipoca, guandu anão, Crotalaria juncea, milheto, ou C, juncea x milheto, milheto x guandu, guandu x sorgo, em fevereiro após as colheitas das culturas de verão (soja ou milho), tendo ainda a possibilidade, no caso da região centro-sul, de cultivar a aveia branca no inverso para produção de grãos, cevada, ervilha, ou mesmo o próprio trigo, após essas opções de entressafra (safrinha), sendo ainda cronologicamente viável a implantação dos cultivos de verão (soja, algodão, milho etc).

Manejo

Embora a escolha das espécies seja de extrema importância para desenvolver uma boa cobertura de solo o manejo das plantas de cobertura de solo o manejo das plantas de cobertura é outro fator que pode regular a permanência da palha na superfície do solo. A relação C/N torna-se mais larga na medida que a planta se desenvolve. Em razão dessa característica, o manejo das plantas de cobertura pode ser retardado ao máximo, visando dotar-lhes de maior resistência à decomposição. Entretanto, não se pode perder de vista que a produção de sementes viáveis poderá infestar a área e aumentar os gastos com herbicidas. Uma relação em torno de 40 parece ser satisfatória quando o objetivo é acumular palha. Caso o plantio dessas plantas ocorra na primavera, antecedendo uma cultura de verão, o manejo não deverá ser retardado muito tempo, pois corre-se o risco de haver prejuízos para a cultura de verão. Nesse caso, a safra principal deve ser priorizada.

Quanto ao manejo pós-desseacação ou sem dessecação das plantas. O ideal seria aguardar o tombamento natural das plantas, pois evitaria uma operação de trânsito na área; entretanto, raramente isso será possível, quando se possui um cronograma de atividades em sequencia. Daí, a melhor opção é fazer a rolagem dessas plantas, preferencialmente que essas sejam deitadas no mesmo sentido em que será realizado o plantio, o que, além de facilitar a operação, diminui a quantidade de palha de corte da semeadura. Quando é adotado um equipamento para picar palha, deve-se saber que a decomposição do material é uma reação de superfície de contato; portanto, quanto menor o tamanho do material picado,maior a superfície passível de ataque pelos microorganismos e, portanto, maior a velocidade de decomposição. A uniformidade de distribuição da palha é importante. Áreas com baixa cobertura facilitam a emergência de plantas espontâneas, perdas de água por evaporação, maior variação térmica etc. Por outro lado, o excesso dela causa problemas operacionais no plantio e prejudica a emergência das plântulas, comprometendo o estande final da lavoura.

A integração lavoura x pecuária também é uma excelente alternativa para a formação de biomassa e um manejo sustentável. A figura 1 mostra a soja semeada sobre consórcio de Tanzânia + Brachiaria ruziziensis, que foram pastejadas entre maio e setembro de 2005, e após a retirada dos animais a rebrota apresentou 6.092 kg ha-¹ de matéria seca para cobertura no plantio direto. Este resultado faz parte do Projeto Arenito do Vale, instalado no município de Santo Inácio, na região do Arenito Caiuá, no noroeste do Paraná. O projeto é patrocinado pela Agrisus e conta com o apoio da Manah. Existem diversos sistemas que podem ser utilizados, dependendo do interesse do produtor e pecuarista.

 

Controle de Pragas doenças e Plantas Daninhas

A formação de palhada do SPD, pode causar alterações físicas, químicas e biológicas no solo causando parcial esgotamento do banco de sementes de plantas invasoras. Além disso, a cobertura morta pode causar impedimento físico à germinação de sementes e durante a decomposição pode produzir substâncias alelopáticas que atuam sobre as sementes das plantas daninhas. Trabalhos conduzidos ao final dos anos 80 pela Fundação ABC na região de Ponta Grossa/PR, evidenciaram que somente a palha do plantio direto, em quantidades ao redor de 3,0 t ha-¹ de matéria seca, controlou em média 50% das ervas invasoras na cultura da soja.

Ensaios conduzidos no Paraguai mostraram que rotação de 2 anos (Crotalaria juncea/ trigo/ soja/ tremoço/milho) reduziu de 11 para 4 o número de aplicações de herbicidas num período de 3 anos. Já em 3 anos de rotação (girassol/ aveia preta/soja-trigo/ soja-tremoço/ milho) o uso de herbicidas foi reduzido a zero.

As plantas de cobertura em rotação também podem diminuir a incidência de patógenos no solo e de plantas hospedeiras. A aveia, ervilhaca, tremoço, linho e colza, apresentam efeito favorável no controle do fungo Ophiobolus sp. (causador do Mal de Pé). A utilização de tremoço intercalado com aveia diminui a infestação de Antracnose sp no tremoço. A Inclusão de gamíneas como sorgo, milho e milheto na rotação de cultura são eficientes em controlar nematóides de cisto (Heterodera glycine).

 

Ciclagem de Nutrientes

A palha deixada sobre a superfície do solo acumula quantidades apreciáveis de nutrientes e estes estarão temporariamente indisponíveis às plantas em crescimento. O tempo de duração desse ciclo até que ele retorne ao solo deve-se às características das plantas que deram origem a essa palhada e ao manejo dela. Assim, é previsível um maior gasto com fertilizantes durante a fase de formação da camada de palha sobre o solo, pois estes estarão fixados a ela e a taxa de liberação é baixa. Na fase de manutenção da cobertura, alcança-se um equilíbrio no ciclo de imobilização e liberação dos nutrientes. As leguminosas, nessa fase têm um papel importante, pois, além da maior quantidade de N acumulada, a taxa de liberação é rápida, aumentando a oferta de nutrientes às plantas. As palhas de gramíneas liberam os nutrientes a médio e longo prazos. Muitas vezes, as quantidades finais de nutrientes liberados pelas gramíneas são iguais ou superiores às quantidades liberadas pelas leguminosas, o que se deve à grande quantidade de fitomassa produzida. Existem, ainda, algumas situações especiais, nas quais as plantas de cobertura conseguem extrair do solo algum nutriente que está numa forma indisponível à maioria das culturas. Um exemplo disto é o caso do guandu que, devido à reação ácida de suas raízes, é capaz de absorver fósforo do solo, anteriormente não disponível e que depois da decomposição da sua fitomassa retorna ao solo numa forma orgânica, facilmente assimilável pelas plantas cultivadas. Outro aspecto relevante da dinâmica proporcionada pela cobertura morta é a liberação de taxas pequenas porém contínuas de nutrientes no sistema solo. Principalmente em solos tropicais isso proporciona melhor aproveitamento destes nutrientes pelas culturas, devido a maior sincronia com suas demandas e menores perdas no sistema por processos como lixiviação e fixação.

Bárbada Fernandes é agrônoma da Manah e acredita que O Brasil adubando dá!









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